Perspective

Como as guerras comerciais estão enfraquecendo os BRICs


Em decorrência da escalada da guerra comercial, reduzimos nossas expectativas de crescimento para as economias dos BRICs (Brasil, Índia, Rússia e China) neste trimestre. Também enxergamos inflação mais elevada em comparação com nossa previsão anterior. Isso é resultado, principalmente, do ligeiro fortalecimento do dólar dos EUA, além do avanço dos preços do petróleo e alimentos.

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Fonte: Thomson Datastream, Schroders Economics Group. 13 de agosto de 2019. Os números entre parênteses referem-se a previsões anteriores. As previsões (f) incluídas não devem servir de base, não são garantidas e são fornecidas apenas de acordo com a data de emissão. Nossas previsões são baseadas em nossas próprias hipóteses, que podem mudar. As previsões e hipóteses poderão ser afetadas por fatores econômicos externos ou outros fatores.

Normalmente, quando a inflação está em alta, os bancos centrais aumentam as taxas de juros para manter os preços sob controle. No entanto, desta vez, acreditamos que as autoridades de mercados emergentes priorizarão a perspectiva de crescimento mais lento, em detrimento da inflação mais elevada, e taxas de juros mais baixas com o propósito de impulsionar a economia.

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Fonte: Thomson Datastream, Schroders Economics Group. 13 de agosto de 2019. Os números entre parênteses referem-se a previsões anteriores. 

China: prepare-se para um impacto

Nossa hipótese mais negativa em relação à guerra comercial tem consequências para a nossa perspectiva do crescimento chinês. O segundo trimestre já havia sido decepcionante em relação à nossa previsão, e as autoridades não promoveram estímulo econômico algum (seja por meio da redução das taxas básicas de juros, aumento dos gastos públicos ou redução de impostos). Portanto, com o contratempo adicional das tarifas, é inevitável que em setembro rebaixemos o crescimento chinês para este ano.

A escalada da guerra comercial também traz más notícias para o câmbio; prevemos  que após o aumento de 25% nas tarifas em todas as exportações chinesas para os EUA, o yuan se enfraquecerá ainda mais, para cerca de 7,2 em relação ao dólar. O aumento dos preços dos alimentos já havia elevado nossa previsão de inflação, e a provável depreciação do câmbio resultará em uma alta ainda mais forte.

Contudo, não se espera que a inflação continue a persistir acima da meta de 3% e, portanto, isso não deve evitar que o Banco Popular da China (BPC) reduza as taxas de juros, caso seja necessário. Também esperamos certo apoio adicional do governo, com probabilidade de medidas de estímulo no quarto trimestre de 2019 e mais em março de 2020.

Brasil: consertando o telhado antes da próxima tempestade

Embora tenhamos rebaixado as expectativas de crescimento de 2019 e 2020 para o Brasil (acompanhando dados qualitativos, dificuldades internas e o enfraquecimento da perspectiva de crescimento global), há boas notícias. O êxito da reforma da previdência impulsionou a confiança e o investimento, ajudando a desencadear uma recuperação considerável nas condições econômicas.

Também esperamos que haja um efeito positivo sobre o câmbio; o real deverá ficar mais forte à medida que as preocupações fiscais foram resolvidas e o crescimento está se recuperando, ajudando a empurrar a inflação para baixo.

A reforma da previdência também elimina uma importante fonte de incerteza para os ativos brasileiros, o que, junto às  perspectivas de crescimento e inflação, facilita cada vez mais para o Banco Central cortar taxas de juros. Esperamos mais cortes após a redução mais recente de 50 pontos percentuais, e revisamos significativamente para baixo a nossa expectativa para as taxas básicas de juros. Agora, esperamos novos cortes de 75 pontos percentuais até o final de 2020, chegando a 5,25%.

Índia: persistem as dificuldades do sistema de crédito

Embora a Índia seja uma economia muito mais fechada do que as outras dos BRICs, e, portanto, desfrute de um grau de isolamento da guerra comercial e do crescimento global mais lento -  a atividade em 2019 continuará a decepcionar. Enquanto isso, o primeiro orçamento do governo liderado por Modi, que volta ao poder após sua vitória nas eleições de maio, ofereceu pouco apoio adicional ao crescimento. Nós escrevemos sobre esse orçamento em julho, notando que decepcionou expectativas de estímulo pró-crescimento e também pesou sobre os mercados.

No front das políticas monetárias, novos cortes nas taxas de juros parecem uma certeza, sobretudo com a inflação ainda contida. Há riscos para essa perspectiva; o recente enfraquecimento da rúpia (assim como outras moedas de mercados emergentes) e a incerteza sobre as chuvas de monções. Da mesma maneira, considerando o cenário do crescimento e do crédito, esperamos mais afrouxamentos em breve.

Rússia: uma trajetória estável

Realizamos alguns modestos rebaixamentos à nossa perspectiva para o crescimento russo, refletindo um segundo trimestre mais fraco neste ano e o cenário global mais lento para 2020. Continuamos a acreditar que no segundo semestre deste ano os projetos de infraestrutura devem apoiar o crescimento daqui até 2020.

Como observamos anteriormente, as políticas fiscais e monetárias da Rússia foram reformuladas para reduzir a sensibilidade de variáveis macroeconômicas ao preço do petróleo, inclusive o câmbio. Consequentemente, mesmo as grandes oscilações nos preços do petróleo tiveram apenas um impacto limitado sobre a perspectiva, em comparação com anos anteriores. Isso também implica um câmbio relativamente estável.

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Fonte: Thomson Datastream, Schroders Economics Group. 16 de agosto de 2019

Um risco está na geopolítica. Os EUA impuseram uma segunda rodada de sanções sobre a Rússia, desta vez proibindo bancos norte-americanos de participar da emissão de dívida soberana russa. Isso se acrescenta à pressão sobre o rublo e, consequentemente, veremos mais cautela por parte do banco central.

A Rússia é a única economia para a qual não mudamos nossa previsão de políticas monetárias. O banco central parece estar cauteloso quanto às expectativas de alta inflacionária e à possibilidade de que o governo comece a gastar mais no final deste ano, gerando mais pressão inflacionária. O enfraquecimento do câmbio relacionado às sanções será apenas mais uma entre outras preocupações.