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Johanna Kyrklund: Como os investidores devem agir em uma crise?

O coronavírus é a mais recente ameaça à harmonia do mercado, e levanta uma questão atemporal: como os investidores devem agir em uma crise?

Seja você um gestor de fundos, responsável por bilhões do dinheiro de terceiros, ou um investidor individual que cuida do seu dinheiro, a questão é igualmente pertinente.

Antes de responder, há algumas perguntas mais prosaicas que podemos considerar. Eu ofereço algumas respostas rápidas:

Quão real é essa crise no sentido econômico?

A verdade é que ainda não sabemos a extensão do surto ou a ruptura econômica que ele pode causar. Sabemos que ele ocorre em um momento em que o crescimento global já era bastante anêmico, portanto, é possível uma desaceleração. Os investidores podem se beneficiar da posse de alguns ativos propícios à recessão. Títulos do governo, o iene japonês e o ouro, por exemplo, podem oferecer algum seguro.

No entanto, cenários econômicos mais otimistas podem se desdobrar. As políticas de contenção, essenciais da perspectiva da saúde, é o que atualmente está causando o maior impacto nas economias ocidentais. Se isso for reduzido, a atividade poderá se recuperar. Mas, repetindo o argumento, ninguém pode prever resultados nesse estágio.

Como agirão as autoridades?

Uma resposta robusta dos bancos centrais e governos seria um alívio para os preços dos ativos. As taxas de juros podem ser cortadas; também poderiam ser solicitados mais cortes de impostos. Se o surto for então contido, os bancos centrais terão mercados de ações no modo “turbo”. Medir a dose certa de remédio para enfrentar crises econômicas é notoriamente difícil, como mostra a história recente.

A reação do mercado acionário é exagerada?

A acentuada liquidação de ações provocada pelo COVID-19 na Europa foi dolorosa. Mas se dermos um passo para trás, podemos ver que os investidores em economias desenvolvidas, que desfrutaram de um mercado em alta incansável na última década, apenas tiveram uma pequena parcela de seus retornos perdidos. Os preços das ações recuaram apenas para os níveis vistos pela última vez em meados de 2019. Observe um gráfico de 10 anos para retornos das ações mundiais e coloca a queda em perspectiva.

Os mercados agora estão baratos?

Eu diria que os valores ainda não estão baratos o suficiente para justificar correr mais riscos, independentemente dos desdobramentos do coronavírus. O que os investidores podem fazer com uma abordagem ativa é identificar oportunidades em potencial e reavaliar o risco de cada ativo individualmente.

Que lições podemos tirar da história?

Observando os dados, podemos tirar diversas conclusões, mas enfatizo uma observação sobre a volatilidade do mercado de ações dos EUA, medida pelo índice VIX, também conhecido como “medidor de medo” do mercado.

Quando esse índice está alto, geralmente ocorrem retornos fortes em seguida. Em média, o S&P 500 retornou 25% nos 12 meses após o VIX exceder 33. E deve-se notar que o VIX atingiu quase 50 em fevereiro, acima da faixa recente normal de 10 a 20.

Os padrões históricos podem não ser repetidos. Eles oferecem alguma garantia, mas seria imprudente, até mesmo ingênuo, descartar os riscos dessa crise até que possam ser quantificados.

Também vale a pena reconhecer a importância de ter informações atualizadas. Isso é sempre crucial para a tomada de decisões sobre investimentos, mas costuma faltar em momentos de crise. O trabalho de nossos analistas em dezenas de locais em todo o mundo é vital. Nossa equipe de mais de 20 cientistas de dados, em particular, está trabalhando diretamente na coleta de informações, em vários projetos sobre o impacto do coronavírus. Por exemplo, isso envolve o rastreamento de indicadores econômicos imediatos, como o uso de aplicativos para táxis, mapas, delivery e café.

Isso nos deixa com nossa pergunta principal: como os investidores devem agir em uma crise?

A resposta é: de forma calma e racional. Ainda há muito o que fazer, é claro. Nossas mesas de investimento continuam realizando análises detalhadas de milhares de ações e títulos. Do ponto de vista de multimercados, estamos sempre sintonizados com novas mudanças nas perspectivas econômicas que alteram as perspectivas para as áreas em que investimos. Enquanto isso, nossos investidores mais especializados continuarão se concentrando nas oportunidades em suas áreas, seja imobiliária, infraestrutura ou private equity.

Um bom investimento exige tomada de decisões com cabeça fria. A fonte da incerteza será sempre diferente, mas processos de investimento bem estabelecidos são projetados para lidar com isso. Eles permitem que os gestores de fundos deem um passo atrás, avaliem o cenário e busquem oportunidades, independentemente das condições.

Um bom investimento também envolve decidir sobre uma estratégia de longo prazo e segui-la.

Portanto, para nossa rotina diária, a única coisa real que muda é a quantidade de lavagem das mãos e outras medidas de saúde recomendadas contra o vírus. Além disso, business as usual.