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O que mudou a perspectiva do Brasil?

O início de 2021 foi obscurecido pela deterioração da pandemia Covid-19 em todo o mundo. O Brasil não foi exceção, vendo uma aceleração dos novos casos diários, apesar de já ter um número elevado. Isso gerou preocupações tanto em relação ao impacto sobre o crescimento quanto à necessidade de apoio fiscal adicional, o que aumentaria ainda mais a carga da dívida do governo brasileiro.

Outros ventos contrários incluíram uma elevação acentuada da inflação, um aumento na incerteza política dada a possibilidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato potencial nas eleições presidenciais de 2022 e questões sobre o compromisso do governo com reformas.

No entanto, o ambiente e o sentimento do mercado melhoraram significativamente nos últimos meses. Como mostra o gráfico abaixo, as ações brasileiras estão agora apresentando desempenho superior ao de outros mercados emergentes no ano.

Então, o que mudou?

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O ritmo das vacinações aumentou

A taxa de vacinações acelerou após um início lento, conforme ilustrado abaixo. As entregas deverão aumentar ainda mais nos próximos meses. Pouco mais de 35% da população recebeu pelo menos uma dose até 30 de junho e deve aumentar para mais de 40% até o final de agosto. Os números de novos casos de Covid-19 bateram o recorde de altas recentemente, mas agora, começou a melhorar e baixar. As hospitalizações têm diminuído e a vacinação de pessoas mais velhas e mais vulneráveis significa que o país pode ter passado do seu pior ponto na pandemia. O aumento das taxas de vacinação dá esperança de que o Brasil comece a fazer a transição pós-pandemia até o final do segundo semestre do ano.

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Atividade econômica surpreendeu positivamente, auxiliada pela força dos preços das commodities

A recuperação econômica no Brasil está em andamento, apesar dos ventos contrários temporários dos lockdowns parciais em março e abril. Isso se reflete na melhora dos indicadores de atividade de alta frequência e dos resultados das empresas.

O crescimento do PIB foi mais forte do que o esperado no quarto trimestre de 2020 e no primeiro trimestre deste ano, auxiliado por preços de commodities mais fortes. A alta nos preços globais das commodities (do minério de ferro ao café) tem sido um vento favorável para o Brasil. Isso beneficiou as contas externas e deu sustentação à moeda brasileira, o real.

Como resultado, as expectativas de crescimento do PIB foram revisadas para cima. A equipe econômica da Schroders agora prevê um crescimento de 4,7% neste ano, ante 2,8% anteriormente.

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Banco Central reagiu ao aumento da inflação

O Banco Central respondeu à aceleração da inflação, que saltou de 4,6% ano-a-ano em janeiro para 8,1% em maio, elevando a taxa básica de juros para 4,25%, contra 2% no início do ano. Também se comprometeu a aumentar o ritmo de aumento das taxas de 0,75 para 1,0 ponto percentual na próxima reunião, se necessário.

Em combinação com preços de commodities mais fortes e uma perspectiva melhorada de crescimento do PIB, o compromisso do Banco Central em conter as pressões inflacionárias apoiou o real.

Esperamos que a taxa básica de juros atinja 6,5%. A inflação deverá atingir o pico no curto prazo - os efeitos de base diminuirão à medida que avançamos ao longo do ano e a recente força da moeda terá um impacto negativo benéfico para a inflação. As taxas reais, portanto, devem ser positivas até o final do ano.

O orçamento foi aprovado, aliviando as preocupações fiscais de curto prazo

Desentendimentos sobre gastos entre Congresso e Executivo atrasaram a aprovação do orçamento federal de 2021. Isso se concentrava amplamente na necessidade de equilibrar o apoio relacionado à pandemia, as demandas de gastos do Congresso e os gastos obrigatórios, sem violar a regra do teto de gastos.

Promulgada sob o governo do presidente Michel Temer em 2016, a regra do teto de gastos impõe um limite para gastos adicionais à taxa de inflação do ano anterior. É a pedra angular da estrutura fiscal do governo em termos de ancorar a confiança em seu compromisso de reduzir o déficit e a dívida geral.

O acordo foi alcançado e o orçamento aprovado, embora o apoio relacionado à pandemia para este ano seja excluído da regra de gastos. São R$ 122 bilhões orçados, bem menos que os R$ 551 bilhões implantados no ano passado. No entanto, a escala de gastos no orçamento é maior do que o esperado no início do ano.

A recuperação do crescimento nominal está levando a uma redução da dívida bruta do Brasil em relação ao PIB de 89% no final de 2020. No entanto, ainda é um dos níveis mais elevados nos mercados emergentes, portanto, disciplina fiscal e reforma são importantes para o desempenho dos ativos brasileiros. O déficit fiscal estava perto de 6% do PIB antes da Covid-19, mas estava em um caminho de melhoria. O impacto da pandemia empurrou para 14% do PIB em 2020. A recuperação econômica esperada e alguma redução nos gastos em relação ao ano passado significa que deve cair para menos de 8% do PIB este ano.

Aumento do progresso na agenda de reformas

Após a incerteza no início do ano, associada a mudanças inesperadas de gestão em empresas estatais, o ímpeto das reformas melhorou. Em particular, a estratégia do governo para reduzir o papel do estado na economia viu mais desinvestimentos e vendas de ativos. Isso inclui a privatização de empresas estatais, como a Caixa Seguridade, o braço de seguros da Caixa Econômica, e, mais recentemente, o anúncio da privatização da Eletrobras.

O Ministro da Economia, Paulo Guedes, idealizou a agenda de reformas pró-mercado com foco na melhoria da tendência de crescimento e na garantia de disciplina e sustentabilidade fiscais. O governo agora está tentando aprovar reformas administrativas e tributárias, mas há uma janela relativamente curta para sua legislação, dado o ciclo político. A menos que haja progresso antes do final do ano, a legislação é improvável antes da eleição do próximo ano.

Quais são os riscos dessa nova perspectiva?

As perspectivas para o Brasil não são todas fáceis. Os casos de coronavírus estão diminuindo, mas permanecem elevados. Dito isso, espera-se que a continuidade da vacinação apoie a normalização, conforme avançamos para 2022.

A inflação também merece monitoramento e pode surpreender para o lado de alta. As chuvas foram significativamente menores este ano e as condições de seca no centro e sul do Brasil reduziram os níveis dos reservatórios para 40% da capacidade. Como a energia hidrelétrica é responsável por mais de 65% da matriz energética geral do país, existe o risco de que o racionamento de água e energia ou aumentos de tarifas sejam necessários ainda este ano.

A próxima eleição presidencial em novembro de 2022 é, sem dúvida, a consideração mais importante para os investidores. A previsão é que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concorra e as pesquisas de opinião agora implicam em uma disputa entre dois candidatos, Lula e o atual presidente Jair Bolsonaro. Com dois candidatos em cada extremidade do espectro político e dívida governamental elevada, a incerteza política pode levar à volatilidade do mercado financeiro. Além disso, a competição política acirrada pode levar a novas preocupações sobre o compromisso com reformas e a disciplina fiscal à medida que entramos em um ano eleitoral.

Perspectivas melhores, mas os riscos de 2022 não podem ser ignorados

Continuamos a favorecer o Brasil. A aplicação da vacina deve apoiar uma recuperação econômica durante o segundo semestre de 2021 e em 2022. As avaliações são razoáveis e atraentes em comparação com outros mercados emergentes globais. A moeda está barata e apoiada por contas externas robustas e aperto monetário. O sucesso na reforma seria um catalisador positivo, no entanto, os desafios estruturais persistem e o risco político aumentará à medida que avançamos para 2022 e o ano eleitoral.