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Quão sustentáveis são os negócios de "fast fashion"?


A expressão  “fast fashion” é usada  livremente por consumidores e investidores. Para alguns, significa roupas que são usadas uma ou duas vezes e depois descartadas. Para outros, significa marcas que respondem rapidamente as últimas tendências e colocam as roupas certas nas lojas antes que a moda mude. Isso pode ser positivo ou negativo para fashionistas, trabalhadores da cadeia de suprimentos e o planeta, dependendo do ponto de vista.

A sustentabilidade está conduzindo cada vez mais a escolha dos consumidores por marcas e a escolha por parte dos investidores por empresas para se investir, por isso é importante o desenvolvimento de uma estrutura consistente e robusta para avaliar essa indústria.

Tal como acontece com outros setores, e mesmo subsetores, um investidor tem uma grande quantidade de particularidades para analisar . Para cada ação que os investidores decidem comprar, manter ou vender, eles precisam estar confortáveis com seu raciocínio. Isso requer uma avaliação profunda.

A julgar pela queda do preço das ações da Boohoo, varejista de moda online com sede no Reino Unido, após o surgimento de um escândalo relacionado a direitos trabalhistas em 2020, o tempo gasto discutindo essas questões é mais do que justificado. Na verdade, você poderia dizer que esses debates não acontecem com frequência que deveriam acontecer. Mas tentar medir o verdadeiro impacto que uma empresa de moda causa no meio ambiente e na sociedade não é fácil. Como investidores, temos que avaliar dados e informações de diferentes níveis e de qualidade distintas.

Boohoo-share-price-chart.png

Boohoo share price = Preço da ação da Boohoo

Source: Schroders, July 2021, 602014 = Fonte: Schroders, Julho de 2021, 602014

Last price = último preço

Rentabilidade obtida no passado não representa garantia de resultados futuros.

Como avaliamos quais empresas de fast fashion são mais sustentáveis

Para encarar esses desafios, criamos uma estrutura para nos ajudar a avaliar o quão sustentáveis são as empresas de moda.

Escolhemos uma seleção de métricas ambientais e focadas no fornecedor para analisar. Para o meio ambiente, podemos citar emissões, água e produtos químicos perigosos e o uso de materiais sustentáveis. Também avaliamos os esforços das empresas para criar um ecossistema de moda circular, seja por meio da reciclagem ou do incentivo à reutilização.

Para fornecedores e direitos humanos, trata-se dos padrões que as marcas exigem de seus fornecedores, até que ponto a cadeia de suprimentos é transparente e auditada e as medidas de denúncia e correção adotadas para quando as coisas derem errado.

Quando se trata do fator “descartabilidade”, reconhecemos que nunca saberemos exatamente quantas vezes os consumidores usam diferentes produtos. É nesta área que organizações não governamentais (ONGs) como a Ellen MacArthur Foundation estão desenvolvendo métricas e evidências, mas é uma nova área de investigação.

Sabemos que algumas peças são usadas mais vezes do que outras e fizemos o possível para encontrar um indicador para medir esse fator, usando uma série de métricas objetivas e subjetivas. Não estamos dizendo que nossa medida é definitiva, ela será revisada ao longo do tempo conforme surgirem novas evidências, mas acreditamos que formulamos uma cobertura significativa para nossa avaliação, conforme descrito abaixo.

Veja o exemplo hipotético de uma camiseta que tem -100 unidades de impacto negativo no meio ambiente. Se a camiseta for usada duas vezes, o impacto negativo é de -50 unidades por uso; se for usada 20 vezes, isso cai para -5 unidades por uso. A diferença é enorme.

Embora existam vários relatórios confiáveis sobre o impacto social e ambiental da indústria da moda, adicionamos esse conceito crítico de “descartabilidade” para refletir a maneira como os produtos são usados.

Objetivamente, consideramos o preço médio da faixa de cada marca. Os preços mais altos sugerem que aquela peça terá que ser usada mais vezes. Subjetivamente, examinamos dados de pesquisa que cobrem a percepção dos consumidores sobre a qualidade e a percepção de estilo dos produtos - produtos de maior qualidade tendem a ser usados com mais frequência e produtos de moda podem deixar de estar na moda mais rapidamente e, portanto, ser usados menos vezes.

Claro, nenhuma dessas medidas está perfeita agora e esperamos que elas se desenvolvam com o tempo. No entanto, sem desenvolver algum tipo de indicador o scorecard deixaria de refletir um dos diferenciais mais fundamentais entre essas empresas à medida que outras metas se tornassem mais padronizadas (por exemplo, reduções de CO2).

O que encontramos?

Dos negócios que avaliamos, a Adidas foi a líder e a Primark/ABF ficou em último lugar. A tabela a seguir classifica a pontuação da empresa com base em nossas métricas sociais e ambientais escolhidas e ajustadas pela nossa medida de descartabilidade. A pontuação bruta é a pontuação sem o ajuste de descartabilidade.

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How companies rank based on our raw and adjusted scores = Como as empresas estão classificadas, baseado em nossa classificações bruta e ajustada

Source: Schroders, company reports, MSCI, Morgan Stanley, Know the chain, Fashion Revolution, Good on You, Ellen MacArthur Foundation, 602015 = Fontes: Schroders, relatórios da empresa, MSCI, Monrgan Stanley, Know the Chain, Fashion Revolution, Good on You, Ellen MacArthur Foundation, 602015.

O objetivo desta amostra é dar uma visão inicial de alguns dos maiores nomes de roupas e artigos esportivos por capitalização de mercado, criando uma fotografia relevante dos nomes mais amplamente discutidos por investidores e consumidores. Devido ao seu tamanho, esses nomes também fornecem os conjuntos de dados mais completos (por meio de seus próprios relatórios e avaliações de terceiros) para facilitar uma estrutura de avaliação eficaz. Continuaremos a expandir a lista com o tempo.

Na maioria das vezes, as empresas pontuaram dentro de uma faixa bastante restrita em relação ao impacto social, o que talvez não seja surpreendente, dada a pressão exercida pelos investidores sobre grandes nomes para melhorar a divulgação e o desempenho aqui. Como resultado, surgiu um certo nível de padronização.

Uma descoberta interessante foi que notamos uma mudança na pontuação da Primark ao ajustá-la à descartabilidade.

A Primark deu passos significativos para melhorar os padrões da cadeia de fornecimento desde a crise do Rana Plaza em 2013. Este foi um incidente no qual um prédio contendo cinco fábricas de roupas em Bangladesh (incluindo uma que fabricava roupas para a Primark) desabou. Mais de 1.100 pessoas morreram e mais de 2.500 ficaram feridas, incluindo mulheres e crianças que trabalhavam no local.

De acordo com nosso modelo, as medidas de melhoria implementadas pela Primark resultaram em uma forte avaliação social. Isso serve para compensar de alguma forma o fraco desempenho ambiental da empresa, onde ela  acabou nas última posições.

Usamos a pontuação de descartabilidade, desenvolvida por nós separadamente, para atuar como um multiplicador a fim de aumentar a importância do que entendemos como uma questão fundamental frequentemente ignorada pelos relatórios da empresa, com classificações entre uma faixa de 0,85x-1,15x da pontuação bruta sendo aplicada.

Usando o nosso multiplicador para contabilizar o alto grau de descartabilidade associado à Primark, ficamos com uma pontuação ajustada que é pior do que a pontuação bruta. Isso sinaliza a um investidor que esse  nome requer monitoramento, apesar do desempenho atual bruto potencialmente melhor do que o esperado.

Esse impacto também é perceptível em uma empresa como a H&M. A marca é considerada por muitos como líder em ESG devido às suas práticas ambientais favoráveis, mas dadas as percepções e comportamento do consumidor em relação à descartabilidade, a H&M cai do segundo para o quinto lugar em nossas classificações.

Obviamente, a classificação pode servir para sinalizar oportunidades tanto quanto para sinalizar riscos de sustentabilidade.

A Adidas está em primeiro lugar com base na pontuação bruta, mas sentimos que o impulso extra fornecido pelo multiplicador de descartabilidade é uma representação precisa da abordagem da empresa para uma sustentabilidade verdadeira. A empresa está comprometida em produzir roupas de alta qualidade e duradouras, e tem ambições de desenvolver novos produtos usando materiais inovadores.

Isoladamente, essa pontuação não pode nos dar total confiança na força da estratégia de produtos da Adidas, mas acreditamos que ela dê suporte às afirmações de sustentabilidade da empresa.

A indústria da moda, em particular o “fast fashion”, tem um impacto significativo no meio ambiente e na sociedade. Por isso, desenvolvemos uma forma objetiva de avaliar o quão sustentáveis são as práticas das empresas. Nossa própria pesquisa é uma parte importante do nosso processo de tomada de decisão. Onde acharmos que as empresas estão aquém de nossas expectativas, nos envolveremos com elas para incentivar a mudança.

Uma perspectiva da Geração Z sobre “fast fashion”, segundo Emmie (filha de 13 anos do Charles Somers)

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"Como consumidora, tento fazer escolhas conscientes quando se trata de roupas, mas a realidade é que sozinha não consigo fazer essas escolhas. Como indivíduo, minhas ações significam pouco ou nada. É impossível sozinha rastrear cada material que eu encontrar e observar sua emissão de carbono e de onde vem a cadeia de suprimentos da empresa.

"O que realmente precisamos são líderes da indústria que sejam capazes de nos guiar em direção a um futuro mais sustentável. Eles precisam parar de ignorar os gritos de consumidores conscientes e ativistas da mudança climática. Não se trata apenas de limitar as emissões na manufatura e obter materiais de forma sustentável, é também sobre a redução dos danos que a moda quer e precisa ter em toda a cadeia de suprimentos.

"A indústria precisa assumir a responsabilidade de influenciar os clientes e desencadear uma mudança de mentalidade que tenha repercussões para uma consciência global."