Análise macro

Deveriam os outros países aprender com a cartilha económica de Trump?

Com o crescimento fora dos EUA a vacilar, esperamos que os governos de todo o mundo comecem a aprender com Trump e utilizem as medidas fiscais e de despesa para apoiar as suas economias.

19/11/2018

Keith Wade

Keith Wade

Economista-Chefe e Estratega

Perspetivas de reconvergência?

O crescimento global em 2017 caracterizou-se pela expansão sincronizada das principais economias do mundo. Isto deveu-se, em grande parte, ao crescimento sólido do comércio global ter gerado uma onda que levantou todos os barcos. Desde que o comércio global diminuiu em 2018, o crescimento económico tornou-se menos coordenado. Enquanto a China, Europa e Japão viram todos as suas taxas de crescimento arrefecer, a economia dos EUA continua a todo o vapor.

Uma das principais diferenças entre os EUA e as outras economias mencionadas tem sido a capacidade dos EUA para manterem o forte crescimento interno numa altura em que a procura externa tem vindo a abrandar. A China, Europa e Japão beneficiaram da recuperação no comércio mundial que ocorreu em 2017, mas visto que este se reverteu, perderam um importante impulsionador de crescimento e não conseguiram compensar isso com crescimento interno.

Nos EUA, as políticas fiscais e da despesa do governo destinadas a impulsionar o crescimento têm suportado uma sólida procura interna, aumentando o consumo e a despesa pública. A este respeito, a generosidade orçamental do Presidente Trump poderia ser vista como tendo chegado na hora certa: ligar os propulsores assim que a economia pareceu estar a começar a abrandar.

As perspetivas para o comércio global parecem desafiadoras visto que indicadores prospetivos, tais como o índice dos gestores de compras (PMI) global de encomendas de exportação, apontam para uma desaceleração adicional durante os próximos meses. As novas encomendas de exportação são um indicador da atividade comercial futura. Por conseguinte, parece improvável que um ressurgimento no comércio global venha a ser responsável por qualquer reconvergência no crescimento global.

Aprender com Trump

Desta vez, o que pode ser mais eficaz é se os governos seguirem a política orçamental de Trump (impostos e despesa), algo que já vemos estar a acontecer.

A China anunciou recentemente cortes fiscais e fala-se em algo mais em termos das vendas de automóveis, IVA e reduções de impostos para as empresas. Na Europa, a política orçamental alemã prepara-se para ser mais expansionista durante o próximo ano, a Itália anunciou uma política orçamental destinada a melhorar o crescimento e o Reino Unido também está a aliviar o seu orçamento. Entretanto, o Japão anunciou um orçamento suplementar e há debate sobre como compensar o impacto do aumento do imposto sobre o consumo em 2019, como gastar mais na educação pré-escolar e outras medidas.

Daqui em diante, pensamos que iremos ver mais governos a tomarem medidas para apoiar o crescimento em termos fiscais e de despesa, especialmente porque os bancos centrais estão agora focados na normalização da política monetária. Para os investidores, isto marcaria uma profunda viragem do apoio tradicional oferecido pelo banco central para algo menos flexível e mais dependente das complexidades da política.