Análise macro

Globalização em crise


Keith Wade

Keith Wade

Economista-Chefe e Estratega

Azad Zangana

Azad Zangana

Senior European Economist and Strategist

Craig Botham

Craig Botham

Emerging Markets Economist

  • Tendo defendido o comércio livre, fluxos de mão-de-obra e de capital, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial encontram-se eles próprios a lutar contra uma onda de protecionismo e movimentos para travar a imigração.
  • As raízes do descontentamento encontram-se nos baixos salários e no baixo crescimento da produtividade. O tema recorrente das recentes reuniões em Washington foi como redistribuir os ganhos decorrentes da globalização de uma forma mais equitativa.
  • Após anos de uma dinâmica deflacionária, a inflação dos preços da energia prepara-se para fazer subir significativamente a inflação europeia e do Reino Unido ao longo dos próximos meses. No entanto, os efeitos da energia só serão temporários e terão um impacto deflacionário no médio prazo.
  • O crescimento da China é estável mas todos os antigos problemas permanecem, com uma renovada e persistente fraqueza do renminbi (RMB) a começar a empurrar os investidores complacentes de volta para uma ligeira preocupação. Será necessário mais estímulo do governo (e que seja concretizado) em 2017, mas antecipamos graves problemas antes do final da década.

Globalização em crise

As raízes subjacentes da atual revolta contra a globalização são a falta de crescimento económico, a queda dos salários reais e o aumento de precariedade laboral, criado em parte pelas novas tecnologias e não pelo comércio internacional propriamente dito.

Os ganhos da tecnologia não estão a ser devolvidos à economia

Com a economia mundial a crescer a metade do ritmo anterior à crise financeira, o crescimento do rendimento é fraco. A globalização também tem contribuído, sem dúvida, para a fraqueza dos salários reais, aumentando a oferta de mão-de-obra para a economia mundial. No entanto, existem outros fatores em jogo. As novas tecnologias são um fator-chave, deslocando os trabalhadores com a crescente mecanização de muitas tarefas manuais e, mais recentemente, a informatização. Embora muitos estejam a beneficiar das novas tecnologias, as pessoas consideram ser difícil regressar ao trabalho quando as suas competências se tornaram obsoletas. Tal pode resultar num período prolongado de subemprego em que têm de aceitar um trabalho menos atrativo ou em desemprego em que se tornam menos qualificadas e menos empregáveis.

O abrandamento da produtividade

No entanto, a verdadeira causa do fraco crescimento do rendimento é a queda de produtividade. Um motivo pelo qual a produtividade está a baixar apesar do avanço tecnológico é que é difícil quantificar adequadamente o rendimento dos produtos relacionados com novas tecnologias. Por exemplo, como é que se mede o rendimento de um smartphone quando é claramente muito mais do que apenas um telefone? A demografia é outra possível causa para a perda de produtividade: à medida que os “baby boomers” chegam à reforma, a força de trabalho está a perder uma grande faixa produtiva de trabalhadores e demorará tempo a formar trabalhadores mais jovens.

Uma perda de dinamismo?

Outro fator é a diminuição do dinamismo na economia. Não há nenhuma definição única de dinamismo, mas em algumas áreas há indícios de uma menor atividade e assunção de risco. Por exemplo, a mobilidade de emprego nos EUA caiu. As pessoas parecem menos dispostas a mudar-se dentro de um setor ou geograficamente. Também há indícios de uma dispersão persistente de empresas de alta e baixa produtividade. Normalmente, uma economia com um bom funcionamento moverá os recursos para as empresas de alta produtividade enquanto aquelas com baixo desempenho caem no esquecimento. Mais conhecida como “destruição criativa”, a ausência deste efeito sugere que há uma retaguarda de empresas “zombie” de baixa produtividade que arrasta para baixo a produtividade agregada.

Qual será a resposta?

O tema recorrente das recentes reuniões do FMI foi a necessidade de dispersar os benefícios da globalização de forma mais ampla. A globalização e o comércio ainda são vistos como a melhor forma de proporcionar prosperidade, mas também se reconheceu que é necessário prestar mais atenção aos que estão a ser deixados para trás. Infelizmente, não houve consenso sobre a forma de o fazer e, enquanto não piorar, não haverá pressão para agir.

Europa: Uma inflação mais elevada poderia reduzir os estímulos dos bancos centrais?

Os investidores estão há anos preocupados com o risco de deflação na Europa. No entanto, a dinâmica dos preços prepara-se para se tornar mais favorável, alterando potencialmente o equilíbrio do risco da deflação novamente para a inflação.

Inflação da zona euro preparada para voltar

Nos próximos meses, o impacto da queda dos preços do petróleo a nível mundial no fim do ano passado sairá da base da comparação anual de preços. Tal fará com que a taxa de inflação homóloga na maioria dos países suba, antes de atingir um pico no primeiro trimestre (visto que os preços do petróleo atingiram o seu limite mínimo em fevereiro de 2016). Se tudo o resto permanecer igual (ou seja, se a inflação subjacente, os preços dos alimentos, álcool e tabaco permanecerem estáveis), prevemos que este aumento da inflação dos preços da energia empurre a taxa de inflação global da zona euro para cerca de 1,9% no final do primeiro trimestre de 2017. Contudo, o impacto da energia depois desvanece-se, sugerindo uma queda na taxa de inflação geral novamente para menos de 1%.

Queda da libra esterlina exacerbará a subida da inflação no Reino Unido

O Reino Unido enfrenta uma dinâmica de inflação dos preços da energia semelhante; no entanto, é provável que o aumento da inflação seja exacerbado pela queda da libra esterlina após a decisão do Reino Unido de sair da UE. A queda da libra não só irá aumentar os preços da energia, mas também, os preços dos alimentos e os preços de importação de bens de uma forma mais geral. Tendo em conta ambos os fatores, prevemos que a inflação do Índice de Preços no Consumidor (IPC) do Reino Unido suba acima dos 3% em termos anuais até meados de 2017, com uma média de 2,9% ao longo do ano como um todo. Esta é uma estimativa provisória da nossa previsão trimestral que será revista na publicação do próximo mês.

Implicações para os bancos centrais

O Banco Central Europeu (BCE) poderia considerar difícil adicionar mais estímulo à medida que a inflação sobe no curto prazo. Para tornar a comunicação de estímulo contínuo mais fácil, sugerimos que a extensão do programa de compra de ativos (QE) por parte do banco central seja anunciada mais cedo e não mais tarde. Pressupomos que o anúncio tenha lugar na reunião de 8 de dezembro. No Reino Unido, embora inflacionária no curto prazo, a queda da libra esterlina e o aumento dos preços de produtos importados implicarão ainda uma maior deflação. O Banco de Inglaterra (BoE) sempre se focou numa meta de inflação de médio prazo e, de momento, pressupomos que as autoridades manterão o atual ambiente de uma política expansionista e poderão flexibilizar ainda mais em 2017.

China: Os problemas acumulam-se atrás da barragem do crescimento

Crescimento mais lento no futuro, mais estímulo em 2017

Embora o PIB chinês do terceiro trimestre tenha crescido 6,7% em termos homólogos, em linha com as expectativas, existem algumas razões para acreditar que o crescimento irá abrandar durante o resto de 2016. As autoridades estão a reprimir a bolha dos mercados imobiliários em algumas partes do país, o governo enfrenta restrições fiscais e, face à conjuntura de uma bolha do mercado imobiliário e à crescente pressão de depreciação da moeda, é provável que o banco central fique relutante em adotar uma política mais expansionista para apoiar o crescimento, caso este realmente abrande. Um último motivo para se esperar algum abrandamento no último trimestre é simplesmente que o governo pode dar-se a esse luxo. O crescimento do PIB até agora este ano tem sido confortavelmente acima da meta de 6,5%, de tal modo que um crescimento de 6% no último trimestre seria visto como um bom resultado do governo. Por conseguinte, os decisores políticos poderão preferir guardar o resto da pólvora seca no quarto trimestre, poupando o seu poder de fogo para 2017 para assegurar um forte crescimento antes do 19º Congresso do Partido. Declarações do Presidente Xi sobre a importância da política fiscal e sobre a importância do controlo do Estado nas empresas públicas sugerem-nos que por agora as reformas do mercado estão efetivamente a merecer menos importância do que o crescimento, independentemente dos custos a longo prazo. O crescimento deve alcançar confortavelmente a sua meta este ano e em 2017, mas o cenário a longo prazo está a deteriorar-se.

A alavancar até ao máximo

Sobre o crescimento continuado do crédito, conforme evidenciado nos números deste trimestre, acreditamos que a questão fundamental é saber como a acumulação de dívida se manifestará. Irá a China explodir e sofrer uma aterragem dura ou sofrerá algo mais semelhante ao Japão – décadas de crescimento muito lento e uma economia repleta de bancos e empresas “zombie”. Neste momento consideramos que ainda é cedo para dizer, visto não sabermos qual será a reação política quando o ponto de inflexão chegar. Dito isto, deve salientar-se que a China ainda desfrutará de um maior potencial de crescimento do que o Japão aquando da sua crise, o que atenua um pouco o risco. Deveremos ter uma ideia mais clara após o 19º Congresso do Partido em novembro do próximo ano, quando forem definidos os objetivos políticos para os próximos cinco anos.

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