Perspetivas para 2022: Ações globais e temáticas
O poder de fixação de preços será fundamental para as ações globais em 2022. Vejamos porquê:

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- As ruturas na cadeia de fornecimento são substanciais, mas devem diminuir durante 2022.
- A inflação continua a ser um risco significativo em muitas indústrias, com custos mais elevados dos fatores de produção, especialmente a energia, já no sistema e traduzindo-se nos preços no consumidor e nos salários.
- As margens provavelmente ficarão sob pressão, logo o poder de fixação de preços será fundamental.
As ruturas na cadeia de fornecimento devem diminuir na maioria das indústrias em 2022
A rutura significativa nas cadeias de fornecimento observada em 2021, em grande parte associada aos encerramentos de capacidade e estrangulamentos nos transportes relacionados com a COVID-19, deverá diminuir à medida que avançamos para 2022.
Historicamente, os atrasos na cadeia de abastecimento ajustam-se muito rapidamente após períodos de tensão, à medida que o mercado responde à maior procura e restabelece os inventários. Não haverá razão para supor que não seja esse o caso em 2022 e, de facto, as tarifas de transporte marítimo de mercadorias já começaram a descer.

No entanto, é altamente provável que os preços da energia permaneçam elevados por uma série de razões. A recuperação económica está a impulsionar a procura de petróleo e gás num momento em que o crescimento da oferta está parado. Uma vez que os governos incentivaram as empresas do setor energético a gastar mais dinheiro em energias renováveis, o investimento na exploração e produção tradicional foi reduzido. Em resultado desse subinvestimento, a oferta não é só restrita, como, em muitos casos, deve diminuir rapidamente, especialmente se os objetivos de emissões forem cumpridos. Por conseguinte, é provável que os preços habituais da energia permaneçam elevados durante um período considerável.
Não restam dúvidas de que, no futuro, as reservas de petróleo e gás no solo valerão uma fração do seu valor implícito atual. Mas, por enquanto, a energia tradicional pode gerar fluxos de caixa e lucros completamente normais. Não acreditamos que esta seja uma visão consensual.
A inflação continua preocupante
Os gestores de fundos temem há já algum tempo que a inflação venha a ser mais do que “transitória” e, até agora, as perspetivas não são boas. Nos EUA, a inflação de 8,6% nos preços no produtor no mês de outubro foi um choque e reflete o impacto do aumento de preços em todo o espectro: dos preços mais elevados da energia e das matérias-primas ao crescimento rápido dos custos com mão de obra.
Este último fenómeno apanhou muitos economistas de surpresa: uma proporção significativa da população ativa dos Estados Unidos e da Europa ainda não voltou ao trabalho. A escassez de mão de obra resultante colocou uma pressão substancial de subida sobre os salários, com os rendimentos médios por hora nos EUA a aumentarem agora 5% e prevendo-se que acelerem ainda mais, à medida que os trabalhadores reagem aos custos mais elevados do combustível e da habitação com uma maior exigência de aumentos salariais.
De um modo geral, apesar de alguma moderação na escassez da oferta, a pressão sobre os preços é acentuada, não tendo constituído uma surpresa a subida da inflação dos preços no consumidor para 6,2% em outubro, a taxa mais alta desde 1982. É difícil ver uma rápida mudança de direção nas pressões sobre os preços, em especial porque o ímpeto de recuperação parece ser forte nas principais regiões do mundo.
As margens estarão sob pressão em muitos setores
O crescimento dos lucros das empresas em 2021 foi extraordinariamente forte. O estímulo monetário e fiscal recorde serviu de suporte à rápida viragem da atividade comercial depois da aprovação das vacinas contra a COVID-19, no final do ano passado. As empresas norte-americanas no S&P 500, por exemplo, estão em condições de entregar lucros por ação de 225 USD em 2021, um aumento de 65% em comparação com 2020.
O facto de os lucros terem sido tão grandes em 2021 faz prever desafios significativos em 2022. Não só as margens nos EUA voltaram a registar máximos históricos, como o impacto total dos custos mais elevados dos fatores de produção ainda não se fez sentir. Com um mercado de trabalho apertado a criar concorrência entre os trabalhadores qualificados em vários setores, haverá mais pressão sobre as margens, especialmente no setor de prestação de serviços. Tudo isto resulta num ambiente muito mais desafiante em termos de rentabilidade.
O poder de fixação de preços será provavelmente um fator-chave nos próximos 12-24 meses
Neste contexto, há riscos claros para as ações no próximo ano, especialmente devido às avaliações atuais relativamente alargadas (especialmente nos EUA). A velha máxima de que as bolsas em alta não morrem de velhice parece certamente ser verdadeira nos dias de hoje.
Também é possível que as empresas consigam sobreviver nos próximos 12 meses transmitindo os preços mais altos para os consumidores, cujas finanças domésticas estão, de um modo geral, em boa forma e que poderão considerar tolerável um aumento de 5% nos preços dos bens de consumo se os salários aumentarem.
No entanto, muitas empresas, especialmente aquelas em setores fragmentados com pouca ou nenhuma diferenciação de produtos, não conseguirão transmitir os custos mais elevados.
No ambiente atual, os setores industriais e de bens de consumo corrente pareceriam mais vulneráveis a custos mais elevados dos fatores de produção, devido ao forte aumento das matérias-primas básicas, tais como cereais e açúcares ou aço e cobre. Em geral, estes setores são também altamente competitivos.
Mas existem exceções dignas de nota: No terceiro trimestre de 2021, a Nestlé conseguiu aumentar os preços mais de 4% em comparação com 2020, devido à sua poderosa franquia global de café, enquanto outras empresas do setor, como a Unilever ou a Proctor & Gamble têm tido mais dificuldades em efetuar quaisquer aumentos de preços.
Talvez os melhores exemplos do poder positivo da fixação de preços se encontrem no setor da tecnologia, particularmente entre as chamadas plataformas de mega capitalização dominantes. As empresas de software, como a Microsoft ou a Adobe, que fornecem ferramentas essenciais para as empresas, governos e famílias, encontram-se numa posição única porque podem aumentar as respetivas taxas de subscrição anuais todos os anos.
Da mesma forma, um número reduzido de plataformas de internet de grande dimensão, nomeadamente a Alphabet, a empresa-mãe da Google, domina o mercado da publicidade digital (que por sua vez está a tornar-se o canal dominante para anunciantes de todas as dimensões). Nos primeiros nove meses do ano, as receitas da Google aumentaram 45% em comparação com o ano anterior, ajudadas pela forte subida de preços.
Muitas outras empresas de software, internet e semicondutores podem incorporar aumentos regulares de preços, mantendo o crescimento dos custos extremamente reduzido. Estas áreas continuarão a ser um terreno fértil de crescimento no próximo ano.
As principais tendências continuam a ganhar ritmo
Afastando-nos um pouco dos desafios imediatos, há uma série de fatores estruturais que provavelmente terão um impacto significativo nos mercados de ações na próxima década e nas seguintes.
A maior parte destas tendências (frequentemente conhecidas como “megatendências”) estão longe de ser novas. Os temas alterações climáticas, transição energética, evolução demográfica, inovação nos cuidados de saúde, digitalização, automação e urbanização têm sido importantes há já muitos anos. No entanto, a sua relevância está a aumentar exponencialmente à medida que as populações aumentam. Em alguns casos, a pandemia simplesmente acelerou o processo de mudança.
Embora existam grandes desafios que precisam de uma resposta à escala global, e rápida, há muitos motivos para acreditar que podem ser resolvidos. Conforme evidenciado pela produção de uma vacina revolucionária apenas nove meses após o surgimento da COVID-19, estamos a viver uma era de ouro no que se refere à inovação.
A convergência de várias tecnologias, desde a capacidade de processamento, conectividade, largura de banda e memória à entrega de energia e software, está a causar uma onda de inovação em vários setores, que em grande parte não teria sido possível há alguns anos.
A vacina contra a COVID-19 não poderia ter sido desenvolvida sem a tecnologia de sequenciação de ADN. Da mesma forma, o processo de transição energética é agora possível devido ao extraordinário progresso na capacidade das baterias, na capacidade de produção de eletricidade renovável e na tecnologia de redes. O processo de transformação global está em curso e é abrangente, universal e duradouro.
Do ponto de vista do investimento, as oportunidades são imensas. Se as nossas previsões sobre as implicações das megatendências estiverem corretas, investir nas empresas expostas às mesmas pode oferecer uma perspetiva de retornos nitidamente superiores aos de um índice de ações tradicional.
Uma palavra final: o envolvimento compensa
De acordo com o antigo provérbio inglês: “Aquele que não conversa, nada sabe.” Isso aplica-se certamente ao investimento. E, no entanto, é surpreendente a frequência com que os investidores e as equipas de gestão das empresas onde investem não interagem. Tradicionalmente, os investidores em ações cotadas em bolsa optam por manifestar as suas opiniões principalmente através do sistema de votação por procuração. Regra geral, votaram e continuam a votar de acordo com a administração da empresa.
Num mundo complexo e em rápida mudança, um diálogo regular e construtivo entre os fornecedores do capital e as empresas onde investem parece essencial. Uma equipa de gestão pode não reconhecer a importância de uma questão específica, como a sustentabilidade ou o bem-estar social, do ponto de vista de um investidor.
Da mesma forma, um investidor pode não apreciar até que ponto uma empresa se comprometeu a desenvolver o seu modelo de negócios com o objetivo de enfrentar alguns dos desafios que discutimos anteriormente. O investimento não para na compra de uma ação. O envolvimento ativo é uma necessidade absoluta.
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