Por que razão o “carma empresarial” é crucial para os retornos do seu investimento
A relação de simbiose entre uma empresa e as partes interessadas implica a noção de “carma empresarial” que pode ajudar uma empresa socialmente responsável a prosperar a longo prazo.

Authors
A sustentabilidade costumava ser uma preocupação de um nicho, mas agora é um assunto amplamente discutido. Do “impacto ambiental“ da aviação comercial às disparidades salariais entre homens e mulheres, as questões relacionadas com sustentabilidade fazem agora parte das nossas conversas quotidianas.
Muitos de nós estão a tentar fazer mais a nível pessoal e viver vidas mais sustentáveis, como reduzir os plásticos descartáveis. Mas e quanto aos nossos investimentos?
Os nossos inquéritos demonstram que os nossos clientes querem conciliar cada vez mais os seus investimentos com os seus valores. No meu entender, os gestores de capitais têm um imperativo moral de ajudar a impulsionar a transição para uma economia sustentável. Podemos fazê-lo direcionando mais capital para empresas geridas de forma sustentável e envolvendo-nos com as empresas onde detemos participações.
- Para obter mais informações sobre atitudes em prol do investimento sustentável, consulte o nosso Estudo de Investidores Globais 2019.
Muitos investidores consideram que deve haver um equilíbrio entre o investimento sustentável e a geração de retornos acima do mercado. Não concordo. Na verdade, acho que só se consegue obter retornos do investimento consistentes a longo prazo investindo em empresas verdadeiramente sustentáveis.
Na minha opinião, a chave para o investimento sustentável é observar como uma empresa lida com as partes interessadas. As empresas que são geridas de modo a respeitar todas as partes interessadas podem oferecer melhores retornos a longo prazo e têm menos probabilidade de enfrentar controvérsias dispendiosas, e até mesmo existenciais.
O que queremos dizer com partes interessadas?
As partes interessadas são, como o nome indica, qualquer parte que tenha um interesse em algo, neste caso numa empresa. O gráfico a seguir mostra o leque de partes interessadas em qualquer empresa. A sua importância relativa varia dependendo da natureza da atividade. Os acionistas são partes interessadas, mas apenas uma entre muitas.

O conceito de “primazia do acionista” consolidou-se na década de 1970. Consiste na teoria de que os interesses dos acionistas devem ser a prioridade máxima para as empresas, acima dos restantes intervenientes. Tal conduziu a uma suposição predominante de que as empresas deveriam ser administradas para maximizar os lucros dos acionistas, independentemente do impacto mais amplo.
Essa forma de pensar está a tornar-se cada vez mais desatualizada. Maximizar o retorno dos acionistas ao mesmo tempo que, por exemplo, se prejudica o ambiente é cada vez mais inaceitável para colaboradores, clientes e opinião pública em geral. Esse dano à reputação pode dissuadir os clientes, resultando numa perda de quota de mercado, e dificultar o recrutamento e a permanência de trabalhadores. Também pode levar à imposição de normas mais rígidas por parte dos reguladores ou à aplicação de multas.
Esta não é, de forma alguma, uma lista exaustiva de eventuais consequências. Claramente, todos estes resultados afetariam os lucros de uma empresa, prejudicando, em última análise, igualmente os acionistas.
Relações com as partes interessadas no mundo real
Para além do domínio do hipotético, nos últimos anos houve vários exemplos de empresas em que a desconsideração pelas partes interessadas teve consequências mais amplas.
Um caso conhecido no Reino Unido é o da empresa retalhista Sports Direct, que perdeu credibilidade em 2016 depois de surgirem relatos de condições de trabalho “desumanas” nos seus armazéns. Os consumidores boicotaram as lojas, resultando numa forte deterioração das vendas e lucros, e o preço das ações atingiu um mínimo de 70% abaixo do pico de 2015 (Fonte: Bloomberg. As ações atingiram o nível máximo de 809 pence em 10 de agosto de 2015 e o nível mais baixo de 252 pence em 26 de julho de 2016.)
Nos Estados Unidos, um do casos mais badalados surgiu no banco Wells Fargo, que chegou às manchetes noticiosas em 2016-17 devido a um esquema de contas falsas. O escândalo ilustrou uma série de falhas no tratamento dado pelo banco a clientes, colaboradores e reguladores. Os clientes foram prejudicados por terem contas abertas sem o seu consentimento, incorrendo em encargos com comissões e vendo afetadas as suas notações de risco. O escândalo resultou do ambiente de trabalho sob pressão e das metas de vendas extremamente agressivas para os colaboradores, o que os levou a tomar medidas desesperadas para cumprir as quotas. Entretanto, a cultura empresarial e a resposta do banco às alegações iniciais demonstraram um flagrante desrespeito pelos reguladores.
O impacto para os acionistas foi doloroso: milhares de milhões de dólares em multas e litígios, encerramento generalizado de sucursais e uma perda significativa de negócio. As ações da empresa têm estado praticamente estáveis desde que estourou o escândalo, apresentando um desempenho inferior aos outros bancos dos EUA em mais de 60% (Fonte: Bloomberg, total return vs S&P 500 Banks Index since September 2016).
Também podemos citar as empresas que arcaram com os custos de desastres ambientais. A explosão e derramamento de petróleo da plataforma Deepwater Horizon da BP, por exemplo, ou o colapso catastrófico de uma barragem da empresa mineira Vale no Brasil no ano passado, que causou a morte de 270 pessoas. E as que incorreram em danos económicos e reputacionais resultantes de boicotes de clientes devido a impostos não pagos (por exemplo, a Starbucks no Reino Unido), mostrando que os clientes estão preparados para responsabilizar as empresas pelas suas obrigações para com a sociedade em geral.
Os exemplos positivos raramente chegam às manchetes, por isso são mais difíceis de ilustrar. Mas há muitos exemplos de empresas em que, por exemplo, o tratamento exemplar dado aos colaboradores resultou em trabalhadores com longa permanência e profundamente comprometidos, aumentando a produtividade e reduzindo os custos associados à rotatividade de pessoal.
Por exemplo, a empresa de engenharia do Reino Unido, Spirax Sarco, gasta mais do que toda a concorrência junta em formação, triplicando a produtividade das vendas para o comum dos novos colaboradores durante os primeiros cinco anos na empresa (Fonte: reuniões com a empresa e análise da Schroders).
No fabricante de semicondutores Texas Instruments, a média de permanência dos colaboradores são uns impressionantes 12 anos e todos os colaboradores recebem um bónus anual com base nos lucros da empresa, incentivando uma cultura colaborativa e inovadora (Fonte: Texas Instruments Corporate Citizenship Brief 2019).
Também podemos pensar em exemplos em que projetos de caridade e investimentos locais obtiveram o apoio da comunidade e das autoridades locais, e onde uma reputação pela gestão ambiental está a fortalecer uma marca e a atrair novos clientes.
As empresas sustentáveis podem prosperar a longo prazo
Estes exemplos ilustram a relação simbiótica entre uma empresa e as suas partes interessadas: gosto de pensar nisso como uma espécie de “carma empresarial”.
Além de evitar danos, há um reconhecimento crescente de que cuidar das partes interessadas traz benefícios comerciais positivos. A Business Roundtable, uma associação de CEO de empresas líderes dos Estados Unidos, mudou recentemente o seu objetivo para incluir um compromisso explícito com todas as partes interessadas.
No entanto, os mercados financeiros ainda tendem a estar muito focados no curto prazo. A análise de muitas empresas tende a concentrar-se nas perspetivas dos próximos dois ou três anos, se não apenas nos próximos dois trimestres. A análise financeira convencional também se esforça por captar fatores não financeiros, como a cultura empresarial e as relações com as partes interessadas.
Tal significa que o mercado mais amplo frequentemente subestima e desvaloriza a resiliência do crescimento e dos retornos que as empresas sustentáveis podem oferecer. É muito interessante, pois oferece uma oportunidade aos investidores de explorar os erros da fixação incorreta de preços no mercado e colher os benefícios quando essas empresas sustentáveis continuarem a superar as expetativas do mercado.
Como investidores, podemos fazer a nossa parte ao incentivar as empresas a serem mais sustentáveis, melhorando os resultados para os nossos clientes e para a sociedade em geral. Envolvemo-nos com as empresas de forma proativa através de conversas com a administração quando temos dúvidas sobre o tratamento das partes interessadas. Tal inclui a monitorização de dados de resultados (tanto os registados como os não convencionais) e reuniões de acompanhamento para verificar se as nossas preocupações estão a ser atendidas.
E, como proprietários de empresas, dispomos de um voto que podemos utilizar nas assembleias gerais anuais para expressarmos o nosso acordo ou desacordo com as políticas da administração. A Equipa de Investimento Sustentável da Schroders votou em 740 assembleias no quarto trimestre de 2019, sendo 12% desses votos contra a administração.
Authors
Topics