Quais as perspetivas a longo prazo para o investimento em cuidados de saúde pós-COVID-19?
A pandemia chamou a atenção para os cuidados de saúde, mas o que acontece quando se descobre uma vacina? Questionámos os especialistas em investimentos da Schroders sobre o que pensam acerca das perspetivas a longo prazo para o setor.

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A crise da COVID-19 afetou a maior parte dos setores económicos este ano. Em 30 de junho, o setor dos cuidados de saúde era um dos únicos três setores a apresentar retornos positivos até à data (1,3% em comparação com os -5,8% para o índice MSCI World). Algumas empresas de cuidados de saúde viram a sua atividade diminuir com o cancelamento de procedimentos cirúrgicos e consultas não essenciais. No entanto, as empresas que fabricam os equipamentos usados para tratar os pacientes de COVID-19 registaram um aumento exponencial das encomendas.
Os especialistas em testes e diagnósticos também observaram um enorme aumento na procura de testes COVID-19, que compensou o declínio nos testes para outras doenças. Foram desenvolvidos vários testes para o vírus, existindo ainda testes de anticorpos para detetar se alguém já esteve contaminado.
Entretanto, as esperanças de um regresso ao "normal" estão, em última análise, concentradas em encontrar uma vacina ou tratamento. Existem mais de 100 potenciais vacinas em desenvolvimento e os tratamentos existentes para outras doenças estão a ser testados para ver se podem ser eficazes contra o vírus.
Todos os pontos acima apontam para uma enorme quantidade de recursos dedicados ao combate à COVID-19, com muitas empresas de cuidados de saúde a beneficiar de um número superior de encomendas, vendas e investimentos.
No entanto, o que acontece se for encontrada uma vacina? O atual período de crescimento poderia estancar drasticamente? As áreas de foco podem mudar, mas há razões para pensar que, mesmo antes da COVID-19, o setor estava à beira de um período de procura crescente, inovação e de eventual maior crescimento.
A importância de se estar preparado
Há um ano, Keith Wade, economista e estratega principal da Schroders, identificou mudanças demográficas e a consequente necessidade de maiores despesas com saúde como uma das suas "verdades incontestáveis" - as tendências que irão moldar o cenário de investimento na próxima década. Na sua opinião, a pandemia da COVID-19 potenciou este tema.
Keith afirma que "seria de esperar que as despesas com saúde aumentassem à medida que os governos conferissem mais resiliência aos seus sistemas de saúde. Tal como o setor bancário teve de aumentar as proteções contra o risco após a crise financeira global, espera-se que o setor da saúde faça o mesmo após a pandemia".
A crise chamou a atenção para os países cujos serviços de saúde se revelaram mal preparados. As dificuldades em encontrar ventiladores adequados ou quantidades suficientes de testes têm tido destaque noticioso. Um nível mais elevado e sustentado de despesas com saúde é, portanto, um facto expectável para vários gestores de fundos da Schroders.
O gestor de fundos de ações europeias, Paul Griffin, referiu que "mesmo tendo passado o pior da crise atual, acreditamos que a procura deverá permanecer sólida. A pandemia chamou a atenção para a importância de se estar preparado. Como tal, esperamos que as empresas que produzem equipamentos e medicamentos essenciais para a vida humana continuem a ter uma elevada procura em relação ao período anterior à crise".
Paul destaca igualmente os produtos biológicos como um "nicho de rápido crescimento" no setor dos cuidados de saúde. Os medicamentos biológicos vão desde proteínas simples a anticorpos complexos fabricados em organismos vivos. Estes medicamentos já existem há uma década, mas são cada vez mais importantes na disponibilização de medicamentos seguros e inovadores com taxas de sucesso mais altas. As empresas de biotecnologia subcontratam cada vez mais o desenvolvimento e o fabrico de produtos biológicos a empresas especializadas. Paul adianta que "muitas dessas empresas com integração vertical estão a gozar de um forte crescimento no mercado dos produtos biológicos".
Três fatores que sustentam o setor
O gestor de fundos de ações globais, John Bowler, concorda que a saúde continuará a ser um tema-chave de investimento para além da crise da COVID-19. Vê três forças que podem tornar a saúde numa área de crescimento sustentável por muitos anos: demografia, eficiência e tecnologia.
- Demografia
O desafio demográfico é claro nos países desenvolvidos. A linha da frente da população de "baby boomers" está a chegar aos 75 anos. Esta é a idade em que ocorrem procedimentos mais complexos, como próteses das ancas, conduzindo a uma aceleração na procura de serviços de cuidados de saúde.
- Eficiência
John refere que "o fardo financeiro para os orçamentos nacionais e os seguros de saúde pagos pelas entidades empregadoras estão a criar a força necessária para a mudança. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre 30% e 40% das despesas com saúde são consideradas desperdiçadas, o que cria uma tremenda oportunidade para aumentar a eficiência".
A pressão sobre os orçamentos governamentais devido à crise económica da COVID-19 reforça a importância deste tema. Keith Wade diz que "as despesas com saúde já representam quase um quinto da despesa pública da OCDE. Este facto representará um desafio para os ministérios das finanças num momento em que o Fundo Monetário Internacional prevê que o total da dívida pública aumentará para 150% do PIB para o G20 até ao final de 2021, em grande parte como consequência da COVID-19".
E não são apenas os governos que procuram obter mais com o seu dinheiro, como afirma Jeremy Knox, da Schroder Adveq: "As empresas farmacêuticas começam a olhar para as próximas fronteiras da medicina, ao mesmo tempo que procuram ser mais eficientes no desenvolvimento de medicamentos para maximizar os retornos de novas terapias. Essa busca pela eficiência gerou um mercado robusto para prestadores de serviços subcontratados. Estes fazem parte integrante da cadeia de valor para o desenvolvimento de medicamentos."
- Tecnologia
John Bowler afirma: "O surto da COVID-19 demonstrou claramente como a tecnologia é importante para o setor da saúde. Em particular, a telessaúde, que se refere à distribuição de serviços relacionados com saúde através de dispositivos eletrónicos, como telemóveis e portáteis, apresenta um potencial significativo de crescimento."
E a tecnologia tem mais a oferecer do que consultas por Zoom para economizar tempo com o seu médico pois, tal como explica John, "há um fluxo constante de tecnologias novas e inovadoras, tanto em matéria de medicamentos como de tecnologia/dados, que estão a fornecer novas abordagens para a gestão de doenças."
Onda de inovação no setor
A tecnologia pode ajudar na busca de uma vacina contra a COVID-19? A utilização de Inteligência Artificial (IA) sugere que sim.
A velocidade e o volume de investigação científica e dos dados gerados diariamente são impossíveis de gerir por um indivíduo, mas a IA, os modelos de aprendizagem automática e os algoritmos podem ajudar os cientistas a interpretar a informação existente. Várias empresas estão a tentar aproveitar esse dilúvio de dados. No Reino Unido, uma empresa de tecnologia inovadora utilizou os seus recursos de IA para pesquisar medicamentos existentes que pudessem ser utilizados no tratamento do novo coronavírus. Encontrou um possível candidato, o que conduziu a um ensaio clínico com a gigante farmacêutica norte-americana Eli Lilly.
Tim Creed, responsável pelo Capital Privado Europeu da Schroders, adianta que "várias empresas já utilizaram a IA antes para identificar possíveis tratamentos. No entanto, trata-se de um caso de grande visibilidade em que a IA ajuda na descoberta e no desenvolvimento de medicamentos. Também demonstra como uma empresa relativamente pequena com tecnologia inovadora pode fazer parceria com um gigante farmacêutico. Quer a COVID-19 seja curada rapidamente ou demore muito, este facto prova como a IA pode funcionar na indústria."
Existem outros exemplos de como empresas inovadoras do Reino Unido usaram as suas capacidades de forma diferente durante a crise atual. Por exemplo, em virtude das pressões sobre o Serviço Nacional de Saúde britânico, algumas empresas privadas intervieram para ajudar. Tim acrescenta que "um dos exemplos é uma empresa que fornece tratamentos para o cancro, incluindo terapia avançada com feixe de protões. Devido ao foco do SNS britânico na COVID-19, outros tratamentos tiveram de ser interrompidos ou adiados. Esta empresa interveio para apoiar o SNS britânico e cuidar de outros pacientes com cancro. Isto é uma situação muito positiva para a relação da empresa com o SNS britânico a longo prazo".
E a inovação no desenvolvimento de novos tratamentos também cria uma procura adicional. John refere que "houve um aumento dramático das despesas com investigação & desenvolvimento na última década. Isso, por si só, cria novos mercados na área dos cuidados de saúde. A prová-lo temos inúmeros medicamentos novos e inovadores em áreas como a oncologia e a terapia genética já na fase de comercialização."
Necessidades de saúde não satisfeitas em mercados emergentes
As expetativas do aumento da procura por cuidados de saúde não se limitam ao envelhecimento da população ou à inovação da alta tecnologia. O setor já está a registar um crescimento em resultado da crescente classe média dos mercados emergentes e da tendência contínua de urbanização, de acordo com Jeremy Knox: "Acreditamos que a indústria global de dispositivos e equipamentos médicos crescerá substancialmente na próxima década. Esperamos que seja impulsionado principalmente pela Ásia, à medida que as suas economias evoluem e os consumidores começam a ter acesso à saúde pela primeira vez."
Em muitos mercados emergentes, um maior acesso aos cuidados de saúde e as melhorias nesses cuidados são uma fonte de potencial de crescimento a longo prazo. A urbanização pode ajudar a expandir o acesso, com a possibilidade de um efeito de superação tecnológica e substituição do fornecedor histórico que leva os mercados emergentes a ultrapassar os mercados desenvolvidos em algumas áreas da saúde. As possibilidades incluem, por exemplo, vincular a tecnologia à prestação de cuidados de saúde sob a forma de farmácias online.
Combinação de fatores para apoiar o crescimento do setor
Tal sugere que, independentemente da COVID-19, há uma série de dinâmicas que podem sustentar o crescimento contínuo e a atividade no setor da saúde. A mudança demográfica e a necessidade de tornar os serviços de saúde mais resistentes a crises futuras impulsionarão a procura crescente e sustentada por serviços de saúde. As pressões orçamentais fazem com que o investimento em tecnologia que aumente a eficiência seja uma necessidade, não uma opção. As possibilidades abertas pelas novas tecnologias são vastas, desde novos tratamentos a novos métodos de acesso aos cuidados de saúde. E há os novos mercados que se abrem à medida que o crescimento nas economias de mercado emergentes permite que mais pessoas tenham acesso aos serviços de saúde.
Essa procura contínua pode fazer com que algumas empresas alcancem um crescimento consistentemente maior no futuro. Esse facto pode torná-las aliciantes para os investidores que procuram retornos mais elevados. Como sempre, selecionar as empresas certas para investir será crucial. Paul Griffin afirma que "estas empresas não são simplesmente locais defensivos para nos escondermos durante uma crise, elas oferecem oportunidades de crescimento a longo prazo."
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