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Análise mensal dos mercados – Janeiro de 2020

  • As ações globais, medidas pelo índice MSCI World, caíram em janeiro, com a disseminação do coronavírus reduzindo o apetite dos investidores por riscos. Os ativos percebidos como mais seguros, como os títulos públicos, registraram bom desempenho.
  • Em termos gerais, as ações dos EUA ficaram estáveis. Elas entraram no novo ano com um forte impulso, mas temores crescentes quanto à propagação do coronavírus apagaram os ganhos iniciais. As ações de energia estão entre as mais atingidas.
  • As preocupações com o coronavírus levaram a um início de ano mais baixo para as ações da zona do euro. Os setores mais fracos incluem energia, materiais e consumo discricionário. As empresas com exposição significativa à China apresentaram desempenho insatisfatório.
  • As ações britânicas tiveram queda em janeiro. O final do mês marcou a saída oficial do Reino Unido da UE e sua entrada em um período de transição. A libra esterlina ficou volátil e registou ganhos acentuados depois que o Banco da Inglaterra manteve as taxas de juros inalteradas.
  • As ações japonesas caíram diante do destaque para a disseminação do coronavírus dado pela cobertura da imprensa. O iene ficou ligeiramente mais volátil em relação ao dólar dos EUA do que nos últimos meses, embora a taxa real do par iene/dólar tenha chegado ao fim de janeiro quase inalterada.
  • As ações dos mercados emergentes também perderam valor. As quedas nos preços das commodities pesam sobre o sentimento em relação a vários países, principalmente África do Sul, Brasil, Chile e Colômbia.
  • Os rendimentos dos títulos públicos despencaram ao longo do mês (ou seja, houve alta dos preços) em meio à cautela dos investidores e reiteração dos cortes de juros pelos bancos centrais.

Observe que os rendimentos passados citados não são sinal de rendimento futuro e podem não se repetir. Os setores, títulos, regiões e países mostrados se destinam apenas a fins ilustrativos e não devem ser considerados como uma recomendação de compra ou venda.

EUA

As ações dos EUA registraram alta vigorosa na primeira quinzena de janeiro, antes de entregar os ganhos e encerrar o mês com estabilidade. O forte impulso do final de 2019 continuou em janeiro, com o S&P 500 atingindo um novo recorde em meados do mês. As tensões comerciais que perseguiram os mercados durante grande parte de 2019 diminuíram com o acordo comercial EUA-China, assinado em 15 de janeiro.

Os dados econômicos dos EUA permaneceram estáveis no cômputo geral. A taxa de desemprego permanece em uma baixa histórica de 50 anos, em 3,5%, mas o crescimento contido dos salários manteve a inflação sob controle. Essa dinâmica permitiu ao Federal Reserve flexibilidade para manter a política monetária inalterada, ainda que tenha ajustado sua classificação do crescimento dos gastos das famílias para "moderado" em vez de "forte". O PIB do quarto trimestre confirmou as expectativas, crescendo 2,1% em relação ao trimestre anterior (valor anualizado).

No entanto, na segunda quinzena do mês os temores crescentes com a propagação do coronavírus, na China e outros lugares, desfizeram o avanço inicial do mercado acionário. O governo Trump impôs uma proibição temporária de viagem a cidadãos não americanos que estejam viajando da China para os EUA. As preocupações dos investidores com a ruptura de cadeias de suprimentos e o enfraquecimento da demanda provocaram temores de que o crescimento pudesse desacelerar.

As ações de energia estão entre as mais atingidas. O preço do petróleo despencou diante das expectativas causadas pelo surto do vírus de redução da demanda chinesa, o que veio a se somar às orientações já cautelosas dos principais produtores de petróleo. Áreas mais defensivas, como as empresas de serviços públicos, registraram melhor desempenho, com a de TI também se mantendo bem em virtude do cessar-fogo da guerra comercial.

Zona do euro

As ações da zona do euro tiveram um início de ano fraco em meio a temores com o possível impacto do coronavírus na atividade econômica global. O MSCI EMU, índice de grandes empresas da zona do euro, registrou retorno de -1,7% em janeiro. Os setores de maior fraqueza durante o mês incluem energia, materiais e consumo discricionário. Os segmentos com exposição considerável à China – como bens de luxo – tiveram desempenho aquém do desejável.

O setor de melhor desempenho durante o mês foi o de serviços púbicos. Esse setor é visto como um porto seguro, que tende a apresentar bom desempenho em tempos de incerteza. Além disso, o setor contou com o respaldo de notícias de que o governo alemão pagará uma indenização de € 2,6 bilhões à RWE como parte da iniciativa do país para migrar do carvão para fontes de energia renováveis. Entrementes, a EDF se beneficiou das notícias de que o governo francês pode introduzir uma nova regulamentação de preços para o mercado atacadista de energia nuclear.

A estimativa instantânea do PIB para o quarto trimestre de 2019 indicou um crescimento de apenas 0,1% no trimestre na zona do euro, abaixo do crescimento de 0,3% no trimestre anterior. A inflação anual saltou para 1,4% em janeiro, ante 1,3% em dezembro, ainda bem abaixo da meta do Banco Central Europeu. Os dados do emprego permaneceram animadores com a queda da taxa de desemprego para 7,4% em dezembro, a taxa mais baixa desde maio de 2008.

Os dados prospectivos mostraram estabilização em patamares baixos, com o índice composto de gerentes de compras (PMI) para janeiro estável em 50,9 (50 é o nível que separa expansão de contração - as pesquisas do PMI baseiam-se em respostas de empresas dos setores de produção e serviços).

Reino Unido

As ações do Reino Unido caíram no período. O fim de janeiro marcou a saída oficial do Reino Unido da UE e sua entrada em um período de transição. A libra esterlina estava volátil, com recuperação acentuada no final do mês, depois que o Banco da Inglaterra (BoE) manteve as taxas de juros inalteradas, confundindo as expectativas do mercado que previam um corte. O Comitê de Política Monetária votou para manter as taxas estáveis diante do início da recuperação dos indicadores de atividade futura após o resultado decisivo das eleições gerais de dezembro.

Os dados divulgados em janeiro, abrangendo o final de 2019, foram heterogêneos. Os últimos números de crescimento do Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS) revelaram que o PIB do Reino Unido subiu 0,1% nos três meses até o final de novembro, mas encolheu 0,3% no próprio mês de novembro. Enquanto isso, o ONS também informou que o volume de vendas no varejo caiu 0,6% em dezembro. Os dados suscitaram especulações de que o Banco da Inglaterra reduziria as taxas, pressionando a libra esterlina, que inicialmente cedeu parte dos exuberantes ganhos obtidos no final de 2019.

No entanto, indicadores prospectivos sugerem que houve uma recuperação acentuada na confiança dos consumidores e empresas britânicos desde a eleição. O IHS Markit/CIPS confirmou que o índice composto de gerentes de compras (PMI) havia se recuperado acima da marca de 50, limiar entre expansão e contração. Enquanto isso, a pesquisa trimestral de tendências industriais do CBI constatou que a proporção de fabricantes que esperam a melhoria das condições de negócios foi 23% maior do que a parcela que prevê piora.

Japão

O mercado japonês teve queda de 2,1% diante do destaque para a disseminação do coronavírus dado pela cobertura da imprensa. O sentimento no início de janeiro também foi atingido pela súbita escalada das tensões em relação ao Irã. O iene ficou ligeiramente mais volátil em relação ao dólar dos EUA do que nos últimos meses, visto que uma tendência geralmente mais fraca foi pontuada pela compra de ienes como um porto seguro. Não obstante, a taxa real do par iene/dólar encerrou janeiro quase inalterada.

A confiança do consumidor japonês aumentou nos últimos dois meses, na esteira do aumento do imposto sobre o consumo em 1º de outubro. Contudo, a recuperação parece um pouco contida em comparação com os aumentos de impostos anteriores. Parte disso pode ser fruto de impactos pontuais do clima quente de inverno e de desastres naturais, mas os dados completam o quadro de um impacto econômico acima do esperado devido ao aumento dos impostos.

A temporada de balanços para o período de outubro a dezembro começou, mas o resultado geral só será sabido no início de fevereiro, quando o grosso das empresas divulgar os dados. O potencial da atual intensificação da incerteza global a ser transmitida por meio do fortalecimento do iene pode levar à continuidade da cautela nas perspectivas das empresas.

No nível micro das ações, houve mais movimentações empresariais japonesas em janeiro. Em janeiro houve a escalada da batalha pelo controle dos componentes do Grupo Toshiba, que começou com a Nuflare Technology em dezembro. Um investidor ativista lançou uma oferta pública para a Toshiba Machine. Mais adiante no mês, uma operação aparentemente simples da Maeda Construction para adquirir 100% da Maeda Road foi rejeitada pela empresa subsidiária. A Maeda Road agora está em busca de um candidato externo ou "cavaleiro branco" para ajudá-la a escapar da empresa controladora.

Ásia excluindo Japão

As ações da Ásia, excluindo o Japão, recuaram em janeiro, em meio a preocupações com o impacto do surto de coronavírus na China sobre o crescimento econômico. Isso ocorreu apesar da melhoria inicial do sentimento em meados do mês, já que EUA e China assinaram a primeira fase de um acordo comercial, conforme previsto.

Tailândia e Filipinas foram os mercados mais fracos no índice MSCI Asia ex Japan, com expectativa de que o turismo sofra o impacto da redução de visitantes da China. A Coreia do Sul ficou para trás com a perspectiva de crescimento global mais fraco e o risco de escassez de componentes da China pesando na perspectiva. China e Taiwan tiveram desempenho inferior a uma margem mais modesta. Em Taiwan, o presidente Tsai-Ing-Wen foi reeleito para um segundo mandato.

Já o Paquistão registrou um pequeno ganho e foi o único mercado a terminar em território positivo. A Índia teve um pequeno retorno negativo, mas superou o índice. A economia está menos aberta do que outros mercados regionais e menos exposta ao crescimento global. Em linhas gerais, o desempenho de Hong Kong ficou alinhado com o índice.

Mercados emergentes

As ações dos mercados emergentes (ME) perderam valor em janeiro, visto que o surto de coronavírus na China ampliou as dúvidas em torno do crescimento global. A resposta das autoridades chinesas foi a imposição de restrições de viagem e o cancelamento dos eventos do Ano Novo Lunar. Com a escalada do surto, a reabertura das fábricas após o feriado de ano novo foi adiada.

Dadas as implicações negativas para o crescimento econômico chinês, os preços globais das commodities ficaram sob pressão. Nesse cenário, África do Sul, Brasil, Chile e Colômbia tiveram desempenho insatisfatório, com a fragilidade do câmbio amplificando os retornos negativos. Na África do Sul, o banco central cortou inesperadamente sua taxa básica de juros em 25 pontos, em meio à persistência da debilidade do crescimento econômico.

A China teve um desempenho ligeiramente inferior ao do índice EM como um todo, embora os mercados do continente estivessem fechados para o feriado de ano novo entre 24 de janeiro e o final do mês. Uma série de mercados emergentes asiáticos, inclusive Coreia do Sul, Tailândia e Filipinas, também registrou desempenho inferior.

Já a Turquia registrou um retorno positivo e teve desempenho superior, pois o banco central cortou sua taxa de juros em 75 pontos, acima do esperado, para 11,25%. O Egito foi o mercado com melhor desempenho no índice, respaldado em parte pela vitalidade do câmbio. O banco central manteve sua principal taxa de juros inalterada, contra as expectativas de um corte de 50 pontos. O México registrou um pequeno ganho diante do alívio da incerteza relacionada ao comércio após a assinatura do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) pelo Presidente Trump.

Títulos globais

Os rendimentos dos títulos públicos caíram em janeiro (o que significa que os preços subiram), com os investidores buscando ativos de menor risco em meio a um surto de coronavírus na China e incertezas quanto ao possível impacto econômico. O Federal Reserve (Fed) e o Banco da Inglaterra (BoE) deixaram as taxas básicas intocadas.

O Fed alterou sua classificação do crescimento dos gastos das famílias de "forte” para "moderado". O BoE retirou as orientações futuras de "aperto limitado e gradual", cortou as previsões de crescimento e declarou que espera que a inflação permaneça abaixo da meta até o final de 2021.

O rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano de 10 anos caiu de 1,92% para 1,51%, ao passo que o rendimento de dois anos recuou de 1,57% para 1,31%. Conforme previsto, a evolução dos processos de impeachment contra o presidente Trump indicou que o caso provavelmente seria descartado pelo Senado. Os dados econômicos dos EUA permaneceram saudáveis em termos gerais.

Na Europa, o rendimento dos títulos alemães de 10 anos declinou de -0,19% para -0,43%, com a França caindo de 0,12% para -0,18% e a Espanha, de 0,47% para 0,24%. O desempenho dos títulos italianos atingiu patamar superior com a perda do partido populista Lega em uma eleição regional. O rendimento dos papéis de 10 anos do país caiu 47 pontos, para 0,94%. O rendimento dos títulos britânicos de 10 anos encolheu de 0,82% para 0,52%. A economia da zona do euro demonstrou maior estabilização a níveis baixos, com o índice composto de gerentes de compras para janeiro em 50,9.

Os títulos privados produziram retornos gerais positivos (em moeda local), liderados pela categoria em grau de investimento, com a queda dos rendimentos globais, mas tiveram desempenho inferior aos títulos públicos. O setor de energia dos EUA ficou abaixo do desempenho exuberante do mês anterior. Os títulos privados do Reino Unido em grau de investimento provaram ser uma exceção, superando os títulos públicos, com os bens de capital na linha de frente. Os títulos em grau de investimento são os da mais alta qualidade, conforme determinado por uma agência de classificação de crédito; os títulos de alto rendimento são mais especulativos, com classificação de crédito abaixo do grau de investimento. Na categoria de alto rendimento, alguns setores do Reino Unido e Europa registraram bom desempenho.

Os títulos públicos e privados dos mercados emergentes de moeda forte produziram retornos totais positivos, apesar da queda das moedas emergentes em geral. As moedas latino-americanas se enfraqueceram de forma generalizada, dada a renovação da incerteza em torno do crescimento chinês.

Embora o índice geral de ações MSCI World tenha perdido 0,6% em janeiro, os títulos conversíveis medidos pelo índice Thomson Reuters Global Focus tiveram ganho de 1,8% em dólares dos EUA. Os papéis conversíveis dos EUA e Europa ficaram mais baratos em janeiro, enquanto os asiáticos e japoneses continuam sendo negociados abaixo da nossa estimativa de valor justo.

Commodities

O índice S&P GSCI Spot registrou uma queda de dois dígitos em janeiro, com as preocupações de crescimento global pesando nas perspectivas de demanda por commodities. A energia foi o componente mais fraco do índice. Os preços do petróleo tiveram queda expressiva com as expectativas de enfraquecimento da demanda, sobretudo da China, dada a probabilidade de que a propagação do coronavírus e as medidas para contê-lo pesem na atividade econômica. Os metais industriais também recuaram diante das expectativas de perda de fôlego da demanda. As commodities agrícolas registraram um pequeno retorno negativo, com queda mais expressiva no caso do café e da soja. Por outro lado, os metais preciosos geraram um retorno positivo, com destaque para o ouro e a prata.

O valor dos investimentos bem como os rendimentos deles derivados podem aumentar ou diminuir e os investidores talvez não recuperem os valores investidos.

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